sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Em defesa de uma escola para este século

Rodrigo Arénas 

Versão portuguesa de Daniel Lousada

Implacável, impiedosa, esta crise pôs em destaque todas as fraquezas de um sistema de ensino obsoleto. De certa forma, deixados à sua sorte, dependentes dos recursos familiares, a maior parte dos estudantes viram o seu per­curso escolar condicionado pelo ambiente económico e social das suas famílias. Neste caos, vimos sobretudo uma escola desadequada ao mundo em que vivemos, ultrapassada pela marcha do tempo.

O modelo escolar está num impasse. A escola já não ­responde aos problemas que as crianças enfrentam, se é que alguma vez respon­deu.

O papel da educação está a ser profunda­mente ata­cado. Quer a consideração da educação como um pro­duto, que a escola comercializa, como a proletarização da profissão docente, estão a perturbar os fundamen­tos da instituição escolar. Assiste-se, hoje, à ideia de que os professores podem ser restaurados à sua “an­tiga gló­ria”, como se houvesse alguma glória nisso!

A escola está ligada à República e aos seus valores; não existe apenas para aprender a ler, escrever e contar. Ela deve, acima de tudo, proporcionar às crianças os meios de que estas neces­sitam para agirem no e sobre o mundo.

A tecnologia digital está também a mudar a escola que, ao resistir [por impulso] à mudança, é incapaz de fornecer o básico. Há toda uma aprendizagem por fa­zer! Sem uma estrutura consistente que os apoie, os es­tudantes são transformados em utilizadores de uma tecnologia que os domina. Durante o confina­mento, os professores, desprovidos da forma ar­tesanal que carac­teriza a sua profissão, viram-se apenas treinadores de aplicações e software. E, no final, o que se viu foi o sec­tor privado a engordar à custa dos défices do sistema Nacional de Educa­ção.

A escola tem, por vezes, regras muito próximas da pri­são. É uma escola que controla o próprio corpo. Um bom exemplo disso é o acesso aos sanitários: em França [e entre nós não faltam exemplos disso], as cri­anças vão às casas de banho, quando as regras o per­mitem e não quando pre­cisam. Temos escolas que não­ conseguem sair do modelo de or­ganização que Fou­cault (d)escreve: professores que vi­giam a classe de acordo com regula­mentos nada ami­gáveis dos alunos. Obvia­mente, há profes­sores que re­sistem a isto. É o sis­tema que está a falhar.

Precisamos de quebrar o modo como a escola se es­trutura. Precisamos de uma escola construída para os mais frágeis; uma escola capaz de orga­nizar aulas que integra vários níveis, que ensina as crianças a en­contrar so­luções através da colaboração e da solidarie­dade. Pre­cisamos de uma escola que pro­cura a felicidade das cri­anças, que sabe como ir para além do quadro disci­pli­nar. Uma escola que saiba reagir à pressão de tre­mendas desigualdades sociais.
As desigualdades sociais são o principal problema da escola e estão no topo da lista de preocupações dos pais. E, no entanto, parece que aceitamos a ideia de que a escola não tem como agir nesta área. Nalguns dis­cursos, por vezes, a desigualdade social é vista mais como algo que nos desculpabiliza, pelo que não faze­mos, do que um desígnio à volta do qual nos deverí­amos mo­bilizar. Ora, aceitar a ideia de que a escola faz apenas o que pode nesta área, é abrir a porta aos que pensam que, na es­cola, é cada um por si.

Estamos numa encruzilhada. Nunca, como hoje, os de­safios do desenvolvimento sustentá­vel foram tão es­tru­turantes. Quem pode dizer que a ecologia não é uma questão central para as gerações futuras? Mas a escola não res­ponde a esta pergunta. O mesmo se aplica à tec­nologia digital. Se a escola não se preparar para ela, en­tão será o GAFAM ** que prevalece.